Nei Lopes, que tem vida misturada à cultura afro, apresenta cem negros

Nei Lopes, que tem vida misturada à cultura afro, apresenta cem negros

17/12/2019 0 Por Casting Black
escritor, pesquisador e compositor Nei Lopes em São Paulo -(Foto: Claudio Belli – 26.jan.2018/Valor/Globo)

Por Bruno Molinero, DaFolha de S. Paulo

No início eles eram objetos, vendidos em praças, anunciados em jornais. Com o fim da escravidão, aqueles que conseguiam obter algum destaque quase sempre tinham um apelido gozado: Cartola, Noite Ilustrada, Jamelão, Grande Otelo…

Foi só depois, com o século 20 já mais do que em curso, que os negros no Brasil ganharam nome, sobrenome e subjetividade —processo que é visto por todo o novo livro de Nei Lopes, “Afro-Brasil Reluzente: 100 Personalidades Notáveis do Século XX”.

“De modo geral, as pessoas me definem antes como sambista. Não por maldade, mas por falta de sensibilidade”, diz ele, em entrevista por telefone. E como, aos 77 anos, Nei Lopes se autodefine? “Sou um otário com sorte”, responde, emendando uma risada.

Além de compositor de sambas que balançam na ponta da língua como “Gostoso Veneno”, “Goiabada Cascão” e outros que ficaram famosos em vozes que vão de Alcione a Chico Buarque, Nei Lopes é romancista, pesquisador da história e da cultura afro-brasileiras e dá canjas de cantor.

Em seu novo livro, ele produz um caldo dessa diversidade ao traçar breves perfis de cem negros brasileiros que ajudaram a definir o século 20 no país —em textos de poucos parágrafos, ideais para serem lidos compulsoriamente.

Estão lá músicos das antigas, como Cartola, Luiz Gonzaga e Clementina de Jesus, e nomes mais recentes dos palcos, caso de Gilberto Gil, Fabiana Cozza e Seu Jorge. Há escritores e pensadores, entre eles Conceição Evaristo, Milton Santos e Paulo Lins, e gente mais pop da TV, como Maju Coutinho e Lázaro Ramos.

Em um equilíbrio entre gente conhecida (Pelé, Candeia, Marielle Franco, a colunista da Folha Djamila Ribeiro) e surpresas (Alzira Rufino, Sonia Guimarães, Ingrid Silva), o livro plana sobre a presença negra em nossa cultura e formação social e serve como provocação para pesquisas mais aprofundadas sobre essas pessoas.

“A maior exposição midiática do negro é um aspecto da inclusão, mas estamos fadados a ver isso regredir com o que está acontecendo aí”, aponta Lopes. Por “aí”, ele se refere às políticas do governo de Jair Bolsonaro, sobretudo à tentativa de nomeação do jornalista Sérgio Camargo para o cargo de presidente da Fundação Palmares.

Camargo chegou a defender o fim do Dia da Consciência Negra e escreveu que a escravidão foi terrível “mas benéfica para os descendentes”. Ele teve a sua indicação suspensa nesta quinta-feira (12).

Para Lopes, as conquistas do movimento negro no século 20, que fizeram pessoas serem conhecidas por nome e sobrenome, já estão em xeque no Brasil do século 21. “A intenção é acabar com tudo, sem critério, promover a violência pela violência.”

Mas, ao mesmo tempo em que aponta o dedo para Brasília, o autor também faz uma autocrítica. “Não existe representatividade política, não foi criada uma bancada de negros no Congresso”, analisa.

Lopes acredita também que até avanços como a criação da Fundação Palmares, em 1988, e a instituição do Dia da Consciência Negra tiveram algum efeito colateral. “Foram iniciativas pontuais e com pouca verba que acabaram fazendo o movimento negro se acomodar. Isso acabou enfraquecendo a militância.”

De sua casa em Seropédica, na região metropolitana do Rio de Janeiro, o escritor não apenas analisa a história —esse movimento se mistura à sua própria vida.

Mais novo de 13 irmãos, Nei Lopes é filho de um negro que nasceu em 1888, meses antes da assinatura da Lei Áurea e a consequente abolição da escravatura. Como seu pai morreu quando ele tinha 18 anos, o autor pouco sabe sobre os seus avós, se eram alforriados ou se ainda eram escravos naquele fim de século 19.

“Só sei que meu pai foi criado em São Cristóvão e muito cedo já não tinha contato com meus avós. É tudo muito confuso, mas lembro que falava muito do patrão, que dava castigos nele”, conta.

Com uma árvore genealógica cheia de buracos que dificilmente serão preenchidos e desvendados, Lopes dedica a sua carreira a puxar fios que tecem a memória coletiva dos descendentes de africanos.

Nei Lopes ao lado de uma estante cheia de livros

Retrato do escritor Nei Lopes, no Rio de Janeiro, no dia do lançamento de “Afro-Brasil Reluzente” (Foto: Jefferson Meganni/Divulgação)

Desde o fim dos anos 1980, ele se dedica a lançar dicionários e enciclopédias temáticas. É o caso de “Novo Dicionário Banto do Brasil”, que define a origem africana de palavras como canga, sunga e carimbo, “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana” e “Dicionário da Antiguidade Africana”. O novo “Afro-Brasil Reluzente” bebe dessa fonte.

Mas mesmo sua ficção leva adiante esse projeto. Seu romance mais recente, “O Preto que Falava Iídiche”, ficou entre os livros finalistas do prêmio Oceanos de literatura deste ano —vencido por Djaimilia Pereira de Almeida.

O livro recria o início do século 20 no Rio de Janeiro, quando a cidade passou por uma reurbanização que pôs fim à praça Onze para dar lugar à nova avenida Presidente Vargas. É no meio disso que o negro Nozinho se apaixona pela judia branca Rachel, com quem fala em iídiche, em uma grande metáfora sobre a formação do povo brasileiro.

“Claro que tem um fundo militante aí, mas sou muito brincalhão. O militante mais ortodoxo é caxias, não dá risada”, fala o escritor sobre um certo não reconhecimento de sua obra por uma parcela do movimento identitário.

Sobre não ser acolhido tampouco por setores da academia que teimam em chamá-lo de sambista, ele tem uma resposta afiada. “Se o Chico Buarque tem dificuldades em ser reconhecido literato, imagina o Nei, que veio do Salgueiro.”

Entre um lado e outro, Nei Lopes se agarra ao próprio nome e sobrenome.


SEIS NOMES PERFILADOS PELO AUTOR EM SEU NOVO LIVRO

Carlinhos Sete Cordas
O violonista é referência no instrumento e já acompanhou nomes como Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Beth Carvalho

Conceição Evaristo
Escritora, é hoje um dos principais nomes negros da literatura e foi homenageada pelo prêmio Jabuti de 2019

Joaquim Barbosa
Primeiro presidente negro do STF, ficou mais conhecido por ser o relator do processo do mensalão

Mãe Stella de Oxóssi
Recebeu prêmios pela luta em defesa da identidade negra e teve seu terreiro, Ilê Axé Opó Afonjá, em Salvador, tombado pelo Iphan

Marielle Franco
Vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018; a investigação do caso ainda está em curso

Johnny Alf
Nome artístico de Alfredo José da Silva, aproximou o samba do jazz e era admirado por nomes como Tom Jobim e João Gilberto